OpenAI e Anthropic compram empresas de segurança para fortalecer IA

Em menos de 48 horas, os dois maiores laboratórios de IA do mundo mexeram no mesmo tabuleiro. A Anthropic fechou a compra da Opaque Systems, de computação confidencial. A OpenAI, por sua vez, está em conversas para comprar a Trail of Bits, firma de segurança de software de Nova York. A lógica é a mesma nos dois casos: a camada de segurança deixa de ser fornecedor e passa a ser ativo próprio.

O negócio da Anthropic está fechado, sem valor divulgado. A Opaque construiu tecnologia para rodar IA sobre dados sensíveis sem expô-los, com parcerias com Nvidia, Intel, Microsoft e Google, e vinha ganhando terreno na Europa e nos Emirados com padrões abertos para IA soberana e instalação on-premise.

A última rodada conhecida da Opaque foi uma Série B de US$ 24 milhões a um valuation de US$ 300 milhões. “Estamos animados em ver seu impacto seguir moldando como a IA é construída e protegida”, escreveu Aaron Fulkerson, CEO da Opaque, em nota sobre a aquisição.

Já o deal da OpenAI ainda não foi fechado. Segundo o The Information, as conversas estão em estágio inicial e o valor não foi apurado. A Trail of Bits foi fundada em 2012, tem mais de 40 funcionários e vive de auditar e corrigir falhas em bibliotecas de código aberto.

As duas já trabalham juntas desde junho, no Patch the Planet, programa que junta os modelos Codex e GPT-5.5-Cyber aos engenheiros da firma: em uma semana, segundo relatos de fontes, acharam centenas de bugs em projetos de cURL, Python e Go e emplacaram 37 correções.

Ambos os negócios miram a camada de segurança, mas com abordagens distintas. Enquanto a Anthropic busca o cliente corporativo que exige o dado dentro de casa, a OpenAI já pensa em montar um negócio de cibersegurança para somar à sua oferta de desenvolvimento, hoje ancorada no Codex.

O pano de fundo é mais interessante que as transações. Uma reportagem da Associated Press do fim de setembro ouviu especialistas e ex-avaliadores de governo que veem nos alertas públicos das duas uma estratégia: alarmar sobre o perigo da IA ajuda a definir as próprias regras num mercado sem regulação.

Conrad Stosz, ex-chefe do CAISI, o centro federal que avalia modelos, resume: as empresas não pedem mais fiscalização do governo, e sim planejam escolher os próprios parâmetros de auditoria e os próprios auditores. Andrew Strait, recém-saído do AI Security Institute britânico, aponta o buraco que permite isso — não existe padrão universal de teste de segurança em IA, ao contrário de restaurante, banco ou aviação.

Nas últimas semanas, a discussão chegou ao governo norte-americano. Em 29 de setembro, Trump e o presidente da Câmara, Mike Johnson, receberam os executivos na Casa Branca. De lá saiu o Joint Commitment on Frontier Responsibilities, acordo voluntário de uma página assinado por Dario Amodei (Anthropic), Greg Brockman (OpenAI), Sundar Pichai (Google), Mark Zuckerberg (Meta), Elon Musk (xAI) e Jensen Huang (Nvidia).

O texto promete controles internos contra ameaças cibernéticas, biológicas e químicas, garantia de que os sistemas não invadam infraestrutura de terceiros, auditores externos independentes, comitês de supervisão nos conselhos e reuniões periódicas por padrões comuns.

No dia seguinte, a FTC confirmou à Axios que investiga a segurança dos produtos da OpenAI, da Anthropic e de outras empresas. O presidente da agência, Andrew Ferguson, prepara intimações que obrigariam executivos a entregar documentos e depor.

Resumo da ópera: na terça-feira as empresas se comprometeram a se auditar. Na quarta, o governo decidiu auditá-las. E, duas semanas depois, as duas maiores foram às compras para ter auditoria e segurança dentro de casa.

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