Ninguém perde a rodada na primeira pergunta do investidor – Startups

Ninguém perde a rodada na primeira pergunta do investidor. Perde na segunda.
Todo founder sabe montar um FAQ. Tamanho de mercado, concorrência, time, tração, quanto quer levantar e para quê. O deck responde a isso, e com ajuda profissional responde ainda melhor. O problema não é o FAQ. É o FAQ do FAQ: a pergunta que a sua resposta provoca.
Há poucos dias, um founder que acompanho começou as primeiras conversas da rodada. O deck estava bom. A história era coerente, bonita, plausível. E as perguntas que voltaram dos investidores não eram as que ele tinha ensaiado.
Eram as que vêm depois da resposta. Aquelas em que o founder diz “opa, nunca tinha pensado nisso, deixa eu ver e te respondo”.
É aí que a rodada se decide.
Para cada resposta que você dá, existe uma porta. “Nosso CAC é X.” Ótimo, e qual é o payback por canal? E o que acontece ao CAC quando você dobra a verba? E quando o canal satura, de onde vem o próximo cliente? O investidor experiente entra por cada porta que você abre.
O diabo não está na primeira pergunta do investidor. Está na segunda.
A primeira pergunta qualquer um antecipa. A segunda exige tempo vivido: ter visto um canal saturar, ter visto um concorrente reagir, ter visto uma margem sumir quando o volume cresceu. Não se improvisa isso na sala. Ou você já passou por aquilo, ou já se sentou com quem passou.
Quero ser justo com os investidores. O investidor investe primeiro na pessoa. Depois, no mercado. Mas, em qualquer momento da conversa, ele está investindo na percepção que tem da solidez do que chega até ele. Uma resposta sólida à segunda pergunta diz mais sobre o founder do que vinte slides bem desenhados.
Porque a segunda pergunta não mede o plano. Mede se existe plano B. Se o founder pensou nos efeitos de primeira, de segunda e de terceira ordem do que está propondo. Como o mercado reage ao plano, como os concorrentes reagem, o que pode ser um deal breaker que trava o crescimento mesmo com dinheiro na conta.
Dois lugares onde o FAQ do FAQ aparece sempre.
O primeiro é o motor de crescimento. A primeira pergunta é “como vocês crescem”. A segunda é “qual é a engrenagem que faz isso repetir sem você empurrar”. Se a resposta é “conteúdo, parcerias e mídia paga”, o investidor ouviu três canais e nenhum motor. Se a resposta é “este canal traz o cliente, este cliente traz o próximo por esta razão, e aqui está o número que mostra isso acontecendo”, ele ouviu uma máquina.
O segundo é unit economics. A primeira pergunta é “quanto custa adquirir um cliente e quanto ele vale”. A segunda é “e por que a conta fecha assim”. Qual é a premissa de retenção que sustenta o LTV, de onde ela veio, o que acontece ao número se a premissa cair pela metade. O founder que responde à primeira e trava na segunda acabou de dizer ao investidor que o número é uma planilha, não uma convicção.
Vivi isso do outro lado da mesa. No QuintoAndar, nas rodadas C, com a General Atlantic, e D, com o SoftBank, o meu trabalho como CMO não era o deck. Era preparar a narrativa para o que vinha depois do deck: por que o crescimento era daquele jeito, o que travava, o que acontecia se dobrássemos a aposta num canal e o que acontecia se um concorrente copiasse. As reuniões boas foram as em que a segunda pergunta já tinha resposta. As difíceis foram as em que descobrimos a pergunta na sala.
E aqui entra uma observação que me acompanha há mais de 15 anos. Vi mais iniciativas de marketing dar errado do que consigo contar. A maioria podia ter sido antecipada. E numa parte enorme das outras, o fracasso foi muito maior do que precisava ser: um planejamento melhor não teria evitado o erro, mas teria feito dele um erro pequeno.
Com rodadas é igual. A quantidade de rodadas que vejo morrer por uma percepção ruim do investidor sobre a qualidade do empreendedor é alta demais. E, na maior parte dos casos, o empreendedor tinha qualidade de sobra. Só não se preparou para a segunda pergunta.
Isso é criticável. E, acima de tudo, é evitável.
O que fazer a partir de segunda-feira é simples de descrever e trabalhoso de executar. Escreva o seu FAQ, as dez perguntas que qualquer investidor vai fazer. Agora, para cada resposta, escreva a pergunta que a sua resposta provoca. Responda a essa também. Onde você travar, está o trabalho real da preparação da rodada. Onde você responder rápido demais, desconfie: provavelmente é a planilha falando, não a experiência.
E depois teste. Não com quem gosta de você. Com quem já se sentou do outro lado da mesa e sabe onde a segunda pergunta dói.
O deck você já tem. Qual é a segunda pergunta que você ainda não consegue responder?